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sábado, 11 de abril de 2009

DESPERTAR


Hoje acordei com os primeiros raios de sol do novo dia batendo suavemente no meu rosto. Os pássaros da manhã cantavam alegremente. Um despertar digno de um filme dos mais românticos. Lindo...
Teria sido assim mesmo, não fosse a maneira como fui despertada. Pedradas na minha janela e muitos gritos na rua. Claro que foi um enorme susto!
Levantei-me e ao verificar o que estava havendo, me deparei com um grupo de jovens, todos com latinhas de cerveja nas mãos (às seis da manhã!) voltando da “balada”.
Eles riam alto e gritavam como loucos e as pedras eram jogadas em todas as janelas. Por mais que eu tente, não conseguirei descrever com precisão o caos em que se transformou esse final de madrugada.
Minha mãe, com 85 anos de idade e com o Alzheimer já em fase avançada, também teve sua janela apedrejada e acordou aos prantos como um bebê, pedindo socorro. Todos os cães da vizinhança se puseram a latir. As pessoas saíram à rua. Realmente uma enorme confusão. Agora, enquanto escrevo acho até engraçado.
Passado o tumulto, tudo calmo e me pus a pensar. Espera aí! Hoje é sexta-feira Santa! Lembrei-me então de quando conhecia um Deus muito bravo que tudo via (as coisa erradas é claro!) e a tudo castigava e que neste dia estava muito triste, pois há muitos anos atrás tinham assassinado seu Filho. E então o máximo que se podia fazer, era o almoço sem nenhum vestígio de carne (até hoje tenho certeza de que peixe também é carne). Nada mais. Não havia trabalho de nenhuma espécie. Tudo o que se fizesse nesse dia era “pecado”. Música então! Nem pensar! Na madrugada o que se fazia era ir à Igreja “guardar Jesus morto”. Os Santos eram cobertos com um tecido roxo e havia quem chorasse sobre a imagem inerte. É claro que os adolescentes odiavam esse dia. Que dia perdido! Mas por outro lado, esperavam ansiosamente o sábado. Aleluia !!!!! Depois de quarenta dias sem poder fazer quase nada e de uma sexta-feira completamente parada, um dia inteiro de festa! À noite o baile. Um dos mais importantes do ano. Roupa nova. A espera para encontrar aquela pessoa especial e dançar. Dançar juntinho. Tudo tão inocente, romântico.
O tempo passou e conheci o outro lado desse Deus que haviam me apresentado. Uma espécie de “avô” que ao invés de castigar, nos pega no colo e nos alenta. E perdoa sempre.
Foi esse lado que apresentei aos meus filhos. Mas também procurei dar a eles uma formação moral. Do respeito pelo próximo e por si próprio. Independente de crença ou proibições da Igreja ou de quem quer que fosse.
Observando esses garotos, tão alterados, pensei nas atrocidades que vemos diariamente acontecendo. Filhos que matam pais e vice versa. Irmãos se degladiando por motivos absurdos. Crianças sendo abusadas de todas as formas, roubos, sequestros, mortes, suicídios. Será que isso é a falta das ameaças do castigo Divino? Ou são os pais que se esqueceram do detalhe que os filhos seriam adultos um dia e que teriam que viver em sociedade e que para isso um mínimo de moral e de respeito é fundamental?
Hoje é Sexta–Feira Santa. Muitas lojas abriram suas portas, muita gente aproveitou o feriado e fez um churrasquinho e alguns poucos fiéis foram à Igreja velar a imagem de Jesus morto. O sábado será como qualquer outro. O baile? Não existe mais... Mesmo porque já não é necessário dançar juntinho para ficar perto de alguém.
A Páscoa é sinônimo de renascimento. Ressurreição para os católicos. Mas independente de religiões, esperemos que algo aconteça , que nosso mundo possa despertar e se livrar dessa violência, desse desrespeito, dessas coisas tão tristes das quais somos espectadores todos os dias.
Feliz Páscoa a todos!

Lygia